segunda-feira, 2 de julho de 2012

A EDUCAÇÃO MORAL DOS ESPÍRITOS DESENCARNADOS




 Neófito que sou (apenas cinco meses) nas lides de doutrinação (ou como alguns denominam, esclarecimento) na Sociedade Espírita Casa do Caminho (SECCA), aqui em Piracicaba, juntamente com os confrades Paschoal Nunes e João Ramalho, veteranos com os quais muito tenho aprendido, intrigava-me o fato de irmãos desencarnados que se manifestavam em uma reunião mediúnica, extremamente agressivos, ameaçadores, endurecidos no mal, retornarem na semana seguinte (ou na outra), bastante modificados, mais calmos, mais racionais, melhor compreendendo sua situação no mundo espiritual.
         Perguntava-me: como e porque acontece com eles tão rápida modificação de pensamento?
         Assim, instigado a pesquisar o assunto, encontrei no livro O Céu e o Inferno (FEB. 34ª ed., p. 293) uma pergunta dirigida ao Espírito São Luís que me esclareceu. Tomo a liberdade de transcrevê-la ipisis litteris, bem como a sua resposta:


 
Pergunta (a S. Luís).- Qual a causa de a educação moral dos desencarnados ser mais fácil que a dos encarnados? As relações pelo Espiritismo estabelecidas entre homens e Espíritos dão azo a que estes últimos se corrijam mais rapidamente sob a influência dos conselhos salutares (grifo nosso), mais do que acontece em relação aos encarnados, como se vê na cura das obsessões.
         Resposta (Sociedade de Paris).- O encarnado, em virtude da própria natureza, está numa luta incessante devido aos elementos contrários de que se compõe e que devem conduzi-lo ao seu fim providencial, reagindo um sobre o outro.
         A matéria facilmente sofre o predomínio de um fluido exterior; se a alma, com todo o poder moral de que é capaz, não reagir, deixar-se-á dominar pelo intermediário do seu corpo, seguindo o impulso das influências perversas que o rodeiam, e isso com facilidade tanto maior quanto os invisíveis, que a subjugavam, atacam de preferência os pontos mais vulneráveis, as tendências para a paixão dominante.
         Outro tanto não se dá com o desencarnado, que, posto sob a influência semimaterial, não se compara por seu estado ao encarnado. O respeito humano, tão preponderante no homem, não existe para aquele, e só este pensamento é bastante para compeli-lo a não resistir longamente às razões que o próprio interesse lhe aponta como boas.
         Ele pode lutar, e o faz mesmo geralmente com mais violência do que o encarnado, visto ser mais livre. Nenhuma cogitação de interesse material, de posição social se lhe antepõe ao raciocínio. Luta por amor do mal, porém cedo adquire a convicção de sua impotência, em face da superioridade moral (grifo nosso) que o domina; a perspectiva de melhor futuro lhe é mais acessível, por se reconhecer na mesma vida em que se deve completar esse futuro; e essa visão não se turva no turbilhão dos prazeres humanos. Em uma palavra, a independência da carne é que facilita a conversão, principalmente quando se tem adquirido um tal ou qual desenvolvimento pelas provações cumpridas.
         Um Espírito inteiramente primitivo seria pouco acessível ao raciocínio, o que aliás não se dá com o que já tem experiência da vida. Demais no encarnado como no desencarnado, é sobre a alma, é sobre o sentimento que se faz mister atuar.
         Toda ação material pode sustar momentaneamente os sofrimentos do homem vicioso, mas o que ela não pode é destruir o princípio mórbido residente na alma.
         Todo e qualquer ato que não vise aperfeiçoar a alma, não poderá desviá-la do mal. S. Luís.”
         Como consequência dessa pesquisa concluí que o doutrinador (ou esclarecedor) deve primeiramente procurar identificar o núcleo principal da problemática do Espírito comunicante e, a partir desse ponto, procurar dar-lhe conselhos salutares e mercê da superioridade moral do doutrinador, o Espírito vislumbrará um melhor futuro para ele próprio seguindo-os. O esclarecimento do espírito comunicante, entretanto, não se dá nesses poucos minutos de conversação com o doutrinador. É, como diz S. Luís, o contato entre os encarnados e os desencarnados, ou seja, o contato entre o perispírito do desencarnado e o perispírito do médium encarnado (o choque anímico) que propicia essa rápida mudança dos  padrões morais do Espírito, além da ausência da influência da matéria sobre o espírito desencarnado. Não nos esqueçamos, entretanto, que o grande trabalho de doutrinação ocorre no plano espiritual, o qual poderá contar, inclusive, com o concurso do médium (ou até de todo o grupo mediúnico) durante o seu desdobramento pelo sono físico.


 
Quanto a nós, encarnados, a resposta de S. Luís também nos serve como guia para explicar porque as nossas mudanças são mais difíceis e trabalhosas. A causa é, segundo ele, esse constante choque entre o Espírito e a matéria e se aquele não reage com todo o seu poder moral, deixa-se dominar por esta última, através das influências perversas, insufladas pelos desencarnados ainda aferrados ao mal, que tiram proveito dos nossos pontos vulneráveis os quais sabem, como ninguém, identificar e explorar em nosso prejuízo; ataques, diga-se de passagem, intensificados quando o encarnado predispõe-se à elevação, como ensina André Luiz no livro Libertação: "Enquanto a criatura é vulgar e não se destaca por aspirações de ordem superior, as inteligências pervertidas não se preocupam com ela; no entanto, logo que demonstre propósitos de sublimação, apura-se-lhe o tom vibratório, passa a ser notada pelos característicos de elevação e é naturalmente perseguida por quem se refugia na inveja ou na rebelião silenciosa, visto não conformar-se com o progresso alheio." (Obra citada, cap. XVI, p. 204).




 


Também nunca é demais relembrar a passagem do Evangelho de Jesus que diz: “E quando o Espírito imundo tem saído do homem, anda por lugares áridos, buscando repouso, e não o encontra. Então diz: Voltarei para a minha casa donde saí. E, voltando, acha-a desocupada, varrida e adornada. Então vai, e leva consigo outros sete Espíritos piores do que ele, e, entrando, habitam ali: e são os últimos atos desse homem piores do que os primeiros" (Evangelho de Mateus, cap. XII, vers.43 a 45). Por isso, seguir conselho de S. Luís de tomar decisões que visem aperfeiçoar o nosso espírito (reforma íntima), além de sábio e salutar, com certeza, tornará muito mais rápido o nosso progresso, como espíritos imortais, ainda na presente encarnação. Assim, além de ter a minha indagação respondida por esta obra básica da Doutrina Espírita, pude colher outros ensinos, que espero, também lhes sejam úteis.

                                                       
 Julio Flávio Rosolen
Espírita, faz parte da diretoria da
Sociedade Espírita Casa do Caminho de Piracicaba
É Coronel da Reserva do Corpo de Bombeiros


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