segunda-feira, 4 de novembro de 2013

A CIÊNCIA EM KARDEC - PRIMEIRA PARTE - POR NUBOR ORLANDO FACURE



Na segunda metade do Século XIX, quando Allan Kardec codificou a Doutrina Espírita, a Ciência humana recebia o trabalho gigantesco de sábios ilustres, Espíritos de elevada estatura que vieram até nós para modificar nossa compreensão sobre importantes fenômenos da natureza. O método científico já estava discutido e divulgado por filósofos da estatura de Descartes e Bacon. Agora, a experimentação iria se estabelecer como a melhor forma de produzir conhecimento.



Vale a pena fazermos uma revisão histórica desse momento vivido por Kardec e pinçarmos, nos seus textos, a contribuição que a Doutrina Espírita estava trazendo para a Ciência naquela época. Com o que conhecemos hoje, temos certeza de que o cientista daquele século não tinha informações suficientes para compreender tudo o que estava sendo revelado mediunicamente para Allan Kardec. Fica, também, a certeza de que até aos dias de hoje ainda não temos alcance para abrangermos cientificamente toda a obra da codificação. Há nela informações que a Ciência humana levará tempo para confirmar e compreender. 

O obscurantismo medieval.


O século de Kardec estava saindo definitivamente do ranço obscurantista que dominava a Ciência da época. Até o final da Idade Média acreditava-se que a “idade da Terra” não passava de 4.600 anos; que os fósseis não tinham nenhuma ligação com o nosso passado; que o homem fora criado num paraíso que ele desrespeitou comendo o fruto proibido e, mesmo assim, ainda ocupava um lugar privilegiado entre todos os seres criados por Deus; que a vida podia nascer na água empoçada ou no meio de roupas velhas; que a madeira se queimava pela presença nela de um “flogístico”; que a eletricidade era tida como um fluido que podia se deslocar obedecendo a forças de atração e repulsão, assim como a água se desloca dos lugares mais altos para os mais baixos; que a luz se deslocava pelo Éter; que a matéria era formada por substâncias, umas elementares outras complexas, que se misturavam obedecendo a leis de afinidade ainda desconhecidas; que algumas substâncias, chamadas de “orgânicas”, só poderiam ser produzidas pelos organismos vivos; que os corpos pesados caíam em decorrência de sua tendência de ficar na Terra



Início das descobertas

Na época de Kardec a Ciência ainda não produzira seus grandes avanços tecnológicos. Até 1834 uma das maiores descobertas feita por um cientista tinha sido o para-raios desenvolvido por Benjamim Franklin.

Entretanto, as Leis fundamentais que permitiriam o nascimento da Ciência moderna já tinham sido descobertas:

Galileu conseguiu comprovar a teoria heliocêntrica de Copérnico e enunciava as primeiras Leis do movimento.

Newton descobrira a matemática da gravidade, explicou o vaivém das marés, a oscilação do pêndulo, a queda dos corpos, a órbita dos astros, e fragmentou a luz sugerindo sua propagação por partículas.

Lavoisier começara a esclarecer a química da respiração e estabelecera leis de conservação da matéria.

Charles Lyell iniciou o estudo da estratificação de áreas geológicas expandindo a idade da Terra em alguns milhares de anos.

Cuvier inaugurava os estudos da paleontologia.

Na filosofia, René Descartes introduzira a reflexão, analisou a conveniência da dúvida, destacou a importância do pensamento racional e separou o estudo do corpo e da alma.

Vessálius revolucionou a anatomia do corpo humano que ele dissecava como uma máquina cujas peças podiam ser desmontadas à semelhança dos relógios e dos moinhos.

Mesmer defendeu a existência do magnetismo animal e fez surgir o sonambulismo provocado.


Galvani se encantara com a eletricidade nas patas de uma rã e Volta descobriu a química que produziria a eletricidade numa pilha rudimentar.

Na Inglaterra, o filósofo Francis Bacon ensinara como observar e experimentar com a natureza, reunindo os fatos, organizando as ideias e produzindo leis gerais a partir do raciocínio indutivo



Vultos iluminados 
Curiosamente, no mesmo momento em que a espiritualidade inspirava Kardec na produção do seu grande trabalho espiritual, a humanidade recebia pela mão de cientistas excepcionais um volume considerável de descobertas no campo das Ciências da matéria.

Charles Darwin e Alfred Wallace divulgaram seus trabalhos sobre a origem e a evolução das espécies.

Richard Virchow, patologista alemão, afirmava que toda célula viva provém de outra célula.

Na Inglaterra, Faraday ampliou nossos conhecimentos sobre a eletricidade e Maxwell reuniu em suas leis a eletricidade e o magnetismo, conseguindo incluir a luz entre os fenômenos eletromagnéticos.

No laboratório de fisiologia, na França, Claude Bernard descobriu a importância da estabilidade dos elementos químicos do sangue e Louis Pasteur iniciou suas pesquisas com a fermentação, invalidou a geração espontânea e, mais tarde, inaugurou a vacinação contra a raiva.


Em 1804, Franz Gall revolucionou a interpretação do cérebro criando a frenologia (citada por Kardec na Revue Spirite de julho de 1860, p. 198, Frenologia e fisiognomia) e em 1864 Paul Broca descobriu a área do cérebro relacionada com a fala. 



Tópicos de Ciência em Kardec 
Vamos fazer agora uma coleta de informações científicas em duas obras da codificação – O Livro dos Espíritos (1857) e A Gênese (1868). A Ciência de hoje está a um século e meio distante dessas obras e só agora começamos a atinar com a importância dos seus textos. Vamos abordar apenas alguns poucos tópicos que nos pareceram instrutivos. 



A origem do Universo - Na época de Kardec a Ciência não tinha qualquer proposta para a origem do Universo. Foi só em 1927 que a teoria da grande explosão – o Big Bang – começou a ser enunciada. Uma grande concentração de energia, surgida do nada, teria provocado, há 13 ou 15 bilhões de anos, a explosão que produziu toda a matéria contida no Universo. Um efeito popular dessa teoria é que ela sugere um início para o mundo em que vivemos e satisfaz a visão teológica dos que admitem o momento bíblico da Criação quando “Deus fez a luz”.

Mais recentemente, a física quântica introduziu o conceito de antimatéria e levantou a possibilidade de existir outros Universos além da realidade física em que transitamos.

Nas lições que os Espíritos nos deixaram, a criação é eterna, renova-se permanentemente, e nossa inteligência não está em condições de apreender qualquer início para o Universo – “não desapareceu essa substância donde provêm as esferas siderais; não morreu essa potência, pois que ainda, incessantemente, dá à luz novas criações e incessantemente recebe, reconstruídos, os princípios dos mundos que se apagam do livro eterno” (A Gênese cap. VI, item 17).

Elementos do Universo - A Ciência de hoje vive alguns dilemas contraditórios. Só admite a existência da matéria, enquanto suas mais recentes teorias propõem que o que existe é energia e a matéria é uma de suas transformações. Não aceita a existência de um mundo imaterial, mas reconhece a necessidade da mente para a percepção da realidade física. E não sabe de onde se origina essa energia nem consegue ter certeza do que é a mente.


Na Filosofia, as substâncias do Universo foram sempre uma preocupação importante. Tales de Mileto considerava que tudo procede da água. Empédocles adotou os quatro elementos, que passaram a fazer parte do conhecimento ocidental por dois milênios – a terra, a água, o ar e o fogo. Tomás de Aquino acrescentou-lhes uma substância espiritual. René Descartes considerava dois elementos – o res cogitans (o sujeito pensante) e o resextensa (o objeto, a matéria). Espinoza falava em apenas uma substância e Leibnitz criou a ideia de infinitas mônadas, sendo a Alma a maior dessas mônadas.

Para a Doutrina Espírita existem “dois elementos, ou, se quiserem, duas forças regem o Universo: o elemento espiritual e o elemento material. Da ação simultânea desses dois princípios nascem fenômenos especiais” (A Gênese, Introdução). Acrescenta, ainda, que “não há, em todo o Universo, senão uma única substância primitiva” – o fluido cósmico universal. 

A vida - Dois momentos do século passado marcaram definitivamente nossa compreensão sobre a vida. A conferência sobre “O que é vida?” que Erwin Schroedinger proferiu em fevereiro de 1943 em Dublin e a publicação de Francis Crick e James Watson de seus estudos relativos à descoberta do DNA em 25 de abril de 1953 – “o oitavo dia da criação”.
O genial físico Erwin Schroedinger propôs que a hereditariedade seria transmitida por um cristal aperiódico, o que permitiria seu estudo com métodos radiológicos. A partir daí, Crick e Watson descobriram a química da dupla hélice que contém nossos genes. Schroedinger sugeriu, também, que a vida exige um aporte externo de energia para conservar sua baixa entropia, o que corresponde a uma alta organização. A termodinâmica dos seres vivos pressupõe a ordem a partir da desordem.

O Espiritismo ensina que a matéria orgânica assume propriedades especiais quando nela atua o “princípio vital”. É no fluido cósmico universal que reside o princípio vital que tem a capacidade de dar “origem à vida dos seres e a perpetua em cada globo” (A Gênese, cap. VI, item 18). É nessa matéria “vitalizada” pelo princípio vital que irá se desenvolver o “princípio inteligente”.

A origem do homem - O homem atual é classificado como uma espécie única denominada Homo sapiens. Ele habita a Terra há cerca de 200 mil anos e é procedente da evolução de hominídeos e outras espécies do gênero Homo cujos achados fósseis já se contam às dezenas.

Há duas correntes que tentam explicar a presença da nossa espécie em lugares tão variados da Terra. Para alguns, nós tivemos uma origem única em território africano e para outros é possível que tenhamos tido origem em diversos pontos do globo. Kardec aborda a origem do homem no capítulo XI de A Gênese e sugere que o corpo humano teria tido origem em diversos pontos da Terra; quanto ao Espírito humano, ele se desenvolveu tanto no planeta como migrou de outros mundos do nosso Universo. 


A origem e evolução das espécies - Charles Darwin publicou “A origem das espécies” dois anos após a primeira edição de O Livro dos Espíritos. Darwin sugere a evolução biológica para explicar a variedade das espécies, enquanto Kardec apresenta a evolução espiritual como princípio fundamental para justificar os propósitos da vida.

Darwin veio comprovar que todas as espécies vivas têm uma origem comum. O homem deixa de ser criatura que já nasce pronta nos jardins do Éden, para percorrer junto com todas as outras espécies a mesma árvore da vida, obedecendo no percurso de milênios a transformações adaptativas.

Já ensinam, claramente, os Espíritos superiores que orientavam Kardec, que “o Espírito não chega a receber a iluminação divina que lhe dá, simultaneamente com o livre-arbítrio e a consciência, a noção de seus altos destinos, sem haver passado pela série fatal dos seres inferiores, entre os quais se elabora lentamente a obra da sua individualização” (A Gênese, cap. VI, item 19). 

Ideias inatas - Essa discussão esteve provocando os filósofos durante milênios. Platão considerava que a alma, ao nascer, já traz conhecimentos que adquiriu no mundo das ideias. No mito da caverna ele sugere que nossa vida material é apenas o reflexo de um mundo verdadeiro pré-existente, e fonte de todo conhecimento. Seu discípulo Aristóteles atribuía o aprendizado à experiência e acreditava que todo conhecimento provém dos sentidos. John Locke também via a mente como uma “tábula rasa”. René Descartes, pelo contrário, defendia a existência de ideias que nos são inatas, como a noção de Deus, as ideias matemáticas e as verdades eternas.



Atualmente essa polêmica envolve, principalmente, a biologia e a neuropsicologia. A descoberta dos genes permitiu-nos conhecer mais profundamente a extensão das nossas heranças e a discussão se estabeleceu em torno de quanto nosso conhecimento é aprendido através da experiência e quanto os genes programam nossos comportamentos. O dilema ganhou fama dividindo ambientalistas e geneticistas na expressão “nature versus nurture” (ambiente versus hereditariedade; aprendizado versus instinto). Nos dias de hoje, ninguém mais duvida da participação tanto dos genes como da estimulação do ambiente na produção do conhecimento.



Na questão 218–a, de O Livro dos Espíritos, Kardec pergunta se a teoria das ideias inatas não seria apenas uma quimera. Os Espíritos nos ensinaram que “os conhecimentos adquiridos em cada existência não mais se perdem. Liberto da matéria, o Espírito sempre os tem presentes. Durante a encarnação, esquece-os em parte, momentaneamente; porém, a intuição que deles conserva lhe auxilia o progresso. Se não fosse assim, teria que recomeçar constantemente”



Nubor Orlando Facure é médico neurocirurgião e diretor do Instituto do Cérebro de Campinas-SP. Ex-professor catedrático de Neurocirurgia na Unicamp (Universidade de Campinas), é escritor, conferencista e espírita, colaborador, de várias páginas, obras, e livros sobre o Espiritismo, é também colaborador do blog Espiritismo Piracicaba.
ifacure@uol.com.br e no Facebook Nubor Orlando Facure


Nota da edição do Blog:

Trata-se de uma matéria dividida em duas partes, escrita pelo médico e espírita pela primeira vez há cerca de 05 anos, em o Consolador, devido ao sucesso, obtivemos do autor autorização para reeditar a mesma, no mesmo periodo que a revista O Consolador, o está fazendo. Nubor é uma das mentes brilhantes não só da Medicina como do Espiritismo, a segunda parte deste maravilhoso texto, será em breve publicada, as duas parte são uma aula, uma palestra por demais importante não só aos cientistas, filosófos, desta doutrina, mas ao segmento religioso dela, para entenderem, não só a doutrina, mas,  Allan Kardec, e que esta doutrina nos dá a única e verdadeira resposta, de quem somos, de onde viemos, porque aqui estamos, e para onde vamos, e onde é a fronteira final.
 (David Chinaglia)

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